terça-feira, 4 de outubro de 2016

MENTIRAS

Você não deveria estar aqui
nessa tarde fria de quinta feira
pós eleitoral.
Antes, ninguém podia beber durante a eleição.
Mentira.
Nem ter esse cabelo assim enroladinho, essas minhoquinhas.
Mentira.
Nem sair por aí declamando esses poemas bregas
ou lendo contos de frases feitas.
Mentira.
Antes da chapinha existia o alisamento.
Mentira.
Você descobriu tarde que não existem os amigos do peito
ou que, se eles existem, se parecem com os ETs.
Mentira.
E que é errado trepar com uma mulher da idade da sua mãe.
Mentira.
Todo mundo diz

Mentiras.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A IMPORTÂNCIA DOS TELHADOS.
Foram nos contar que havíamos sido convocados novamente por causa do nosso amor febril, mas sabíamos que era mentira. Desde que fugimos pela primeira vez do subúrbio operário que tentam nos enganar com ramalhetes turvos em oposição ao céu, sempre límpido e cinza, refletido no convexo das nossas íris. Nós os incomodamos. Também é mentira a afirmação de que nossa oposição cerrada ao regime chamado de azul, tão avesso ao vermelho das nossas vísceras, começou quando nos espantamos com os livros e com o trem. Ela nasceu conosco, e foi se consolidando, aos poucos, na mesma proporção em que o regime crescia. Quando fomos, enfim, encontrados, julgados e desterrados, implantaram um objeto pequeno e não identificado nos nossos ouvidos para servir de ponte amaldiçoada entre nós e eles, mas nós o explodimos.
Não, nós não somos livres, ninguém é, nesse mundo devastado a escravidão assumiu uma nova forma e alguns até dizem que ela não existe, já que agora que o regime evoluiu, todos podem vagar tranquilamente pelos terrenos descampados das fábricas procurando restos. Os que querem comer decentemente, ainda trabalham, mas só ganham comida e são obrigados a abandonar suas crianças sujas, famintas e remelentas em casa, porque todas as escolas foram fechadas. As escolas foram consideradas inúteis e destruídas e os professores foram fuzilados em represália à tanta ineficiência. Fazia tempo que ninguém aprendia nada lá e o governo atual se desobrigou da responsabilidade alimentar dos seus membros.  No tempo em que a gente ainda estudava e achava que a escola tinha alguma serventia esse tipo de sociedade era chamada de distopia, agora, nada mais tem sentido nem nome, e diante da nossa tristeza e tentativa fracassada de nomear as coisas, as crianças reagem com sorrisos vazios e mudos.
Desde que fomos expulsos encontramos muitas crianças pelo caminho. Antes da grande catástrofe todos diziam que as crianças eram o futuro, agora, só as mais fortes conseguem sobreviver, as mais vorazes, capazes de caçar cães selvagens e pombas doentes e não há nada que possamos ensinar para elas ou que elas queiram aprender, comer lhes basta, e nós apenas lhes fazemos companhia.
Aos poucos, fomos abandonando os velhos hábitos, primeiro, deixamos de tomar banho, depois, de usar talheres, e, apesar da infestação de piolhos, parte da população ainda tem vergonha de raspar os pelos das cabeças e dos sexos e se arrastam pelos terrenos baldios com os cabelos desgrenhados e farrapos de cuecas e calcinhas, com os semblantes cada dia mais parecidos com os dos duendes. Ninguém tem mais residência fixa e depois do desastre ecológico que se abateu sobre o planeta nunca mais fez frio e, em breve, todos andarão nus e carecas pelo país (de acordo com as medidas de segurança e higiene decretadas), e será como se sempre tivesse sido assim. Em vão, nós mostramos fotos de bonecos de neve ou nos vestimos com alguns casacos e perucas antigas, mas sempre somos recebidos com sorrisos incompreensíveis. Também tentamos mostrar para eles seu próprio crescimento, com marcas na parede, para lhes ensinar a noção de transformação e de tempo, a moda antiga, e enterramos os mortos que encontramos pelo caminho, mas eles não nos imitam.
Às vezes, nós pedimos comida para os donos dos canis. Eles vivem nos arredores do que restou da cidade e são responsáveis pelo abastecimento de carne do governo. Para receber nosso pedaço, geralmente vindo da morte de algum cachorro louco, oferecemos alguma menina, ou menino, se o proprietário preferir.  Até hoje, ninguém do nosso bando morreu, mas alguns não retornaram.  Viver ao relento deve ter nos dado uma resistência maior que a dos operários, sempre enfurnados naqueles espaços escuros e opressivos das fábricas, cada dia mais inúteis, já que ninguém tem dinheiro para comprar nada.  Nas fábricas, morrem pessoas todos os dias e elas também não são enterradas. Apesar de alguns protestos hipócritas, os empresários têm outros planos para os corpos, que são reaproveitados pelos donos dos canis, e já faz tempo que os governantes não governam.
As igrejas também estão vazias. No início, padres, pastores, kardecistas e pais de santo se uniram em uma tentativa vã de solidariedade, mas diante da impossibilidade de se sustentar o mundo com caridade e do fato de alguns pastores terem se aliado à cúpula do governo em uma franca atitude de covardia, os fiéis debandaram, inconformados com um Deus tão injusto que como último ato de bondade tornou as pessoas estéreis.
Também não existe mais música ou tecnologia. Muitos consideram como marco desse novo tempo o dia em que o último celular do planeta tocou, mas ninguém sabe ao certo que dia foi esse e nós fracassamos ao tentar consertar algumas filmadoras para fazer o registro do grande final e deixar alguma explicação espantada para o futuro, apesar de não acreditarmos nisso, já que até a água está contaminada. O mundo, ou, pelo menos, esse mundo, acabará, a História se desmancha lentamente e a memória é apagada diariamente por incêndios constantes em museus e bibliotecas velhas (incêndios iniciados pelo governo) e o grande valor dos livros e revistas encontrados pelo caminho é o de propiciarem a oportunidade ideal para que possamos cozinhar as carniças que nos alimentam. No inicio, antes das provisões acabarem e do clima ficar totalmente hostil, foram empreendidos esforços para organizar grupos de leitura coletiva nesses espaços, porém, a escassez dos alimentos aflorou os instintos primitivos dos homens e resultou em um uso muito mais imediato e útil para os livros. Atualmente, todas as bibliotecas públicas do passado já foram consumidas, mas, às vezes, algum sortudo encontra alguma perdida, que pertenceu a algum avançado ancestral, e uma grande fogueira é erguida no local em um raro momento de trégua entre o que restou da humanidade. É um momento mágico, mas que corroborou para a impossibilidade de qualquer registro escrito, todo papel encontrado é imediatamente queimado, e só nos resta escrever nos muros, palavras incompreensíveis, que quase ninguém mais sabe ler e, por isso, fomos convocados, em vão, porque estão acabando as tintas e as mídias para as gravações.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

 TRAGÉDIA
Presas no trabalho
concentradas e enlouquecidas
as fiandeiras tecem
o insólito dia.
Suas unhas sujas
transpassam o tecido
e de dentro do tapete escuro
surgem as ninfas.
Vendido
o tapete foi encontrado
em um corpo gordo
de cor indefinida.
Um pequeno furo
se arrastava
do umbigo da fada
para o do analista.
Não foram encontradas cartas.

terça-feira, 13 de setembro de 2016






A Importância do inferno em três atos.

No encontro com Perséfone
houve música barata
e após rápidos ruídos de cópulas
e partos a céu aberto
nasceram bebês anencéfalos
que se alimentam de romãs.

Na terra de Sísifo
bebem mulheres vermelhas
enquanto os peixes se suicidam
e se traficam os fígados
dos que não se adaptaram
ao cotidiano de abril.

Sobre o paraíso
só se sabe o que os satélites dizem.
Fotos de imensos icebergs
impedem a visão dos corpos
e todo recém-nascido é banido
para uma terra sem vida
e sem jurisdição.









terça-feira, 6 de setembro de 2016

O TREM
Suicidou-se o trem que nos levava ao centro.
Centenas de pessoas viraram subúrbio
enquanto outras viravam crentes.
Todo mundo que lia no vagão
morreu.
Não foram eles que incendiaram as ruas
ou quebraram as vitrines.
Quando os sobreviventes retornaram
tiranos nunca vistos
destrancaram os portões.
E durante meses
 o trem apodreceu
aguardando salvamento.
Os mortos morrendo lentos
Os crentes se convertendo
O povo no panis et circenses
e os gerentes de plantão.











quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Últimos poemas para acabar uma carta inacabada e compor um livro.
Para Roberto Piva.

 Agora escrevo nuvens.
Desenhos que se transformam com o vento
em quebra cabeças perdidos.
Um ar que chega quente
através do vapor do chuveiro
e que desorienta
 o ritmo natural da chuva.
&
limpas
as palavras passam
da garganta cortada dos ratos
para dentro das frutas.

  Agora escrevo trópicos.
Tristes índios que se transubstanciam em frutas
flores que se assemelham a uvas
coladas em azulejos portugueses
de homens que foram rejeitados
pela valentia dos canibais.

Agora escrevo tempo.
Indícios de decomposição das frutas
adubo para a sobrevivência das bestas
e dos germes de hospitais.
&
sujas
as palavras retornam
das vísceras amarelas 
aos paraísos artificiais.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016





Foto de Chema Madoz


DESEJO
Quero um homem coberto de vento
um homem que traga o mundo
na ponta da língua azulada
e que chupe distraído
cerejas no meu ventre.
 
Um homem aquático
parido sem pressa
no tambor do tempo
e que não guarde remorso
pela terra destruída.
 
Um homem leve


que ao tocar o chão


destrua as histórias inventadas


multiplique os cegos de nascença


e desapareça no ar.




quarta-feira, 17 de agosto de 2016

CORAÇÕES Iluminados

Para Hector Babenco.

 

Outra manhã e falhamos todos.

O vento chega tarde e sopra inconsistente

sobre a beleza roxa da imagem desbotada

e a memória é um pedaço volátil de uma coluna partida.

Cenas que podem envolver


a morte de um parricida,

um pouco de vinho ou a ilusão da mitra.

 

Longe dos cometas suicidas

um homem encerrou suas  lentes

e deixou como  herdeiros desenhos desabitados

preenchidos por pinturas de meninas.

Pixotes esquecidos pelas ruas sujas

Travestis encarcerados em películas.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

BICHO DE PÉ
A memória  cicatriza com uma garfada.
De barriga cheia a língua lambe as facas
que  foram  poupadas da raiva da turba
da preguiça dos bêbados
e da impossibilidade dos animais.
A vergonha se esconde em vulvas ensanguentadas
em fósseis de mulheres encontradas na África
nos restos de comida desperdiçada
na violência dos pequenos rancores.
Não é preciso dizer tudo.
O tempo que escorre lento
é maior que o da palavra inventada.


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Meninos


Tem sempre um menino bonito para a gente espiar
os meninos no mar são movimentos que emergem em ombros
e se afundam em membros molhados...
percorrendo as grossas coxas
que nadam escondidas no escuro lunar.



Os meninos não têm idade, cor ou altura
às vezes são tão leves que a gente não consegue enxergar
esses voam ou andam de bicicleta
vestem gravatas amarelas
e juram que vão se matar.


Outros truculentos guardam terra nas entranhas
abominam os malabaristas
e tudo que fica no ar
mas meninos só se transformam em meninos
quando a gente para de olhar.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016



DNA DE JONAS

A ninguém mais causa desejo
o herdeiro de aparência insólita
que só recebeu do pai
a ordem de pescar.
Do seu corpo tatuado de ausências
espia um velho estarrecido
que se recusa a falar.

Ninguém mais causou desejo
no cavaleiro que contemplou calado
sua  herança de  miscigenação âmbar.
Seu sexo estendido entre os dedos
penetrou uma prostituta
que ele  ajudou a embalar.

A ninguém pode causar desejo
a imagem de um menino sem tempo
e sem pai para imitar.
De dentro do sermão do medo
surgiu o sonho de uma baleia
que ele pretende matar.