quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Últimos poemas para acabar uma carta inacabada e compor um livro.
Para Roberto Piva.

 Agora escrevo nuvens.
Desenhos que se transformam com o vento
em quebra cabeças perdidos.
Um ar que chega quente
através do vapor do chuveiro
e que desorienta
 o ritmo natural da chuva.
&
limpas
as palavras passam
da garganta cortada dos ratos
para dentro das frutas.

  Agora escrevo trópicos.
Tristes índios que se transubstanciam em frutas
flores que se assemelham a uvas
coladas em azulejos portugueses
de homens que foram rejeitados
pela valentia dos canibais.

Agora escrevo tempo.
Indícios de decomposição das frutas
adubo para a sobrevivência das bestas
e dos germes de hospitais.
&
sujas
as palavras retornam
das vísceras amarelas 
aos paraísos artificiais.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016





Foto de Chema Madoz


DESEJO
Quero um homem coberto de vento
um homem que traga o mundo
na ponta da língua azulada
e que chupe distraído
cerejas no meu ventre.
 
Um homem aquático
parido sem pressa
no tambor do tempo
e que não guarde remorso
pela terra destruída.
 
Um homem leve


que ao tocar o chão


destrua as histórias inventadas


multiplique os cegos de nascença


e desapareça no ar.




quarta-feira, 17 de agosto de 2016

CORAÇÕES Iluminados

Para Hector Babenco.

 

Outra manhã e falhamos todos.

O vento chega tarde e sopra inconsistente

sobre a beleza roxa da imagem desbotada

e a memória é um pedaço volátil de uma coluna partida.

Cenas que podem envolver


a morte de um parricida,

um pouco de vinho ou a ilusão da mitra.

 

Longe dos cometas suicidas

um homem encerrou suas  lentes

e deixou como  herdeiros desenhos desabitados

preenchidos por pinturas de meninas.

Pixotes esquecidos pelas ruas sujas

Travestis encarcerados em películas.