terça-feira, 6 de setembro de 2016

O TREM
Suicidou-se o trem que nos levava ao centro.
Centenas de pessoas viraram subúrbio
enquanto outras viravam crentes.
Todo mundo que lia no vagão
morreu.
Não foram eles que incendiaram as ruas
ou quebraram as vitrines.
Quando os sobreviventes retornaram
tiranos nunca vistos
destrancaram os portões.
E durante meses
 o trem apodreceu
aguardando salvamento.
Os mortos morrendo lentos
Os crentes se convertendo
O povo se contorcendo
e os gerentes de plantão.









quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Últimos poemas para acabar uma carta inacabada e compor um livro.
Para Roberto Piva.

 Agora escrevo nuvens.
Desenhos que se transformam com o vento
em quebra cabeças perdidos.
Um ar que chega quente
através do vapor do chuveiro
e que desorienta
 o ritmo natural da chuva.
&
limpas
as palavras passam
da garganta cortada dos ratos
para dentro das frutas.

  Agora escrevo trópicos.
Tristes índios que se transubstanciam em frutas
flores que se assemelham a uvas
coladas em azulejos portugueses
de homens que foram rejeitados
pela valentia dos canibais.

Agora escrevo tempo.
Indícios de decomposição das frutas
adubo para a sobrevivência das bestas
e dos germes de hospitais.
&
sujas
as palavras retornam
das vísceras amarelas 
aos paraísos artificiais.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016




Foto de Chema Madoz

DESEJO
Quero um homem coberto de vento
um homem que traga o mundo
na ponta da língua azulada
e que chupe distraído
cerejas no meu ventre.
Um homem aquático
parido sem pressa
no tambor do tempo
e que não guarde remorso
pela terra destruída.
Um homem leve

que ao tocar o chão

destrua as histórias inventadas

multiplique os cegos de nascença

reinvente as feridas

e desapareça

sem explicações.



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

CORAÇÕES Iluminados

Para Hector Babenco.

 

Outra manhã e falhamos todos.

O vento chega tarde e sopra inconsistente

sobre a beleza roxa da imagem desbotada

e a memória é um pedaço volátil de uma coluna partida.

Cenas que podem envolver


a morte de um parricida,

um pouco de vinho ou a ilusão da mitra.

 

Longe dos cometas suicidas

um homem encerrou suas  lentes

e deixou como  herdeiros desenhos desabitados

preenchidos por pinturas de meninas.

Pixotes esquecidos pelas ruas sujas

Travestis encarcerados em películas.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

BICHO DE PÉ
A memória  cicatriza com uma garfada.
De barriga cheia a língua lambe as facas
que  foram  poupadas da raiva da turba
da preguiça dos bêbados
e da impossibilidade dos animais.
A vergonha se esconde em vulvas ensanguentadas
em fósseis de mulheres encontradas na África
nos restos de comida desperdiçada
na violência dos pequenos rancores.
Não é preciso dizer tudo.
O tempo que escorre lento
é maior que o da palavra inventada.


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Meninos


Tem sempre um menino bonito para a gente espiar
os meninos no mar são movimentos que emergem em ombros
e se afundam em membros molhados...
percorrendo as grossas coxas
que nadam escondidas no escuro lunar.



Os meninos não têm idade, cor ou altura
às vezes são tão leves que a gente não consegue enxergar
esses voam ou andam de bicicleta
vestem gravatas amarelas
e juram que vão se matar.


Outros truculentos guardam terra nas entranhas
abominam os malabaristas
e tudo que fica no ar
mas meninos só se transformam em meninos
quando a gente para de olhar.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016



DNA DE JONAS

A ninguém mais causa desejo
o herdeiro de aparência insólita
que só recebeu do pai
a ordem de pescar.
Do seu corpo tatuado de ausências
espia um velho estarrecido
que se recusa a falar.

Ninguém mais causou desejo
no cavaleiro que contemplou calado
sua  herança de  miscigenação âmbar.
Seu sexo estendido entre os dedos
penetrou uma prostituta
que ele  ajudou a embalar.

A ninguém pode causar desejo
a imagem de um menino sem tempo
e sem pai para imitar.
De dentro do sermão do medo
surgiu o sonho de uma baleia
que ele pretende matar.