ANÁLISE DA NARRATIVA “O
PÁSSARO TRANSPARENTE” DE OSMAN LINS.
Indefinido, é assim que começa a
descrição do personagem do primeiro texto do livro Nove, novena de Osman Lins
que trás na capa o subtítulo: narrativas, deixando clara sua adesão à estética
do modernismo que tem como uma das suas características o enfraquecimento das
fronteiras tradicionais, não apenas entre os gêneros, mas entre as linguagens
artísticas, conforme depreendemos do texto aqui analisado, que alterna cenas semelhantes
a quadros, com a consciência de um protagonista cuja interioridade é construída
em conexão direta com as paisagens nas quais se passam os acontecimentos.
Oscilando entre o passado e o
presente, o conto narra de forma não linear, através de uma descrição semelhante
à montagem e ao corte cinematográfico, que se alterna com as reminiscências
típicas da memória, a história de um homem bem sucedido que amargurado, recorda
os sonhos vividos na juventude.
No ensaio Reflexões sobre o romance moderno, Anatol Rosenfeld
levanta a hipótese de que, no campo das artes ocorreu um fenômeno que ele intitula
de “desrealização”, que se observa inicialmente na pintura, e que está
relacionado ao fato de a arte ter deixado de ser mimética. Segundo ele, tal
fenômeno também pode ser observado no romance moderno e se manifesta
principalmente na fusão entre passado, presente e futuro. Essa abolição do
tempo cronológico abala a perspectiva nítida do romance realista que deixa de
apresentar o retrato de indivíduos íntegros. Apesar de ROSENFELD estar se
referindo ao romance, suas observações podem ser aplicadas ao presente texto,
já que Nove, novena marca o início de uma fase experimental do autor na qual as
questões relativas a uma definição clara de gênero perde a centralidade, como
podemos notar no trecho da entrevista abaixo transcrito:
O Fiel e a Pedra
começou como novela e depois virou um romance. Como e quando você determina o
gênero? Poderia definir o que é o conto, a novela e o romance? É razoável
persistir o gênero literário na literatura contemporânea?
Devemos conceder maior
amplitude à pergunta que leva a essa controvertida questão de gêneros,
indagando, por exemplo, o que se entende por ficção. Que devemos entender por
ficção? Acho ser a fixação, através da palavra escrita, e com ênfase na
aparência das coisas, pelo autor decompostas e reorganizadas, de uma visão
pessoal do mundo, não raro absurda e quase sempre insólita, que no entanto se
confunde, sob a pressão do gênio do escritor, com o universo onde todos
habitamos. A designação do gênero me parece acadêmica, não importa. E as
existentes nem sempre satisfazem. Designei os trabalhos de Nove, Novena, por
exemplo, como narrativas.
No posfácio de Nove, novena: “Palavra
Feita Vida” ,
José Paulo Paes se refere à “Um pássaro transparente”
como um conto, já que: ele envolve um
único conflito dramático para cuja resolução se encaminha de pronto o fio
fabular, embora de forma não linear, no entanto, nesse mesmo texto, ele observa
que: essa montagem descontínua de
flagrantes temporais, que dinamizam a forma do conto, ameaçam romper os limites
que o separam da novela.
Ainda em relação à questão do gênero, é interessante pensarmos nas
reflexões de Júlio Cortázar
quando ele aproxima o conto da poesia, nesse aspecto, apesar das diferenças
encontradas entre os autores, há, nas narrativas de Osman Lins, uma aproximação
entre esses gêneros, na medida em que a contemplação ocupa um importante papel refletido
nas cenas descritivas, que se assemelham literalmente a quadros. Ao contrário
do que ocorre em um conto realista, em “O Pássaro Transparente” a descrição
dissolve a ação e a subjetividade que emerge não é propriamente a de um eu
individualizado.
Nesse sentido, é interessante pensar na relação que Adorno
estabelece entre lírica e sociedade, quando ele diz que a universalidade do
teor lírico é essencialmente social: “Só entende aquilo que o poema diz quem
escuta, em sua solidão, a voz da humanidade”. E é essa voz que ouvimos
reverberar nessa bela narrativa de Osman Lins.
A narrativa começa com a descrição de um
menino de oito anos que, ao fitar um gato preto e branco, estabelece com ele
uma relação de contraponto pautada na superioridade da sua espécie e na sua
durabilidade temporal em relação ao felino, e nessa primeira descrição já
encontramos o que NITRINI
chamou de “Poética de tensões”, marca registrada da literatura de Osman Lins de
Nove, novena à Rainha dos cárceres da Grécia:
“Você me olha de cima, porque está no muro. Mas vou ser um homem, vou
viver cem anos. Crescer. E quando for mais alto que portas e telhados, onde
estarás? Hein? Sentado onde? Olho para você e já vejo a ossada brilhando no
monturo. Andas mansinho, és um silêncio andando. Eu, quando crescer, meu bater
de calcanhar no chão será como trovões”.
Mas
apesar dessa aparente altivez, retratada através da oposição entre barulho e
silêncio, o menino já traz uma tristeza escondida, fruto de uma resignação que vai
sendo desvendada ao longo da narrativa, na qual descobrimos que a capacidade de
permanência do personagem não está relacionada apenas a uma questão temporal,
mas a continuidade de uma condição social que ele herda do pai, um senhor de
engenho de um pequeno vilarejo localizado em algum lugar, provavelmente no interior
do nordeste reiterando a hipótese de uma representação arquetípica que permeia
a obra do autor, e ao menino de rosto brilhante e cabelo fino e claro, se
contrapõe: a face de um homem exausto,
emoldurada pela janela do trem
que se dirige ao velório do pai, imagem que antecipa a transformação da
criança sonhadora em um homem cruel:
“Seus cabelos escuros começam a embranquecer,
a roupa de casimira negra (luto do pai) é demasiado frouxa, demasiado cômoda,
as meias brancas enrugam-se nos tornozelos, os sapatos não brilham...”.
Após a lembrança das cartas rasgadas no trem pelo
protagonista, vai se desenhando aos poucos a tentativa de resistência de
libertação de uma herança social imposta empreendida, sem sucesso, pelo
personagem durante sua juventude e, na contraposição que ele estabelece, dessa
vez com a paisagem, que ao contrário dele, mudou pouco, encontramos novamente
aquela resignação apontada no começo da história e que está refletida na
imobilidade: ele mudou por fora, envelheceu, mas por dentro continua o mesmo: “Este engenho, como os outros que vejo no
caminho, parece eterno com seu triste bueiro, seus telhados velhos e o copiar
sombrio”
e, além disso, mesmo que ele pudesse voltar no tempo, de nada adiantaria: “A juventude do homem, felizmente não é como
a folhagem dessas árvores. Se fosse, se eu voltasse a ser jovem, cometeria os
mesmos erros, talvez outros maiores”.
A aceitação do papel social que lhe
foi atribuído fica ainda mais evidente no momento descritivo de contemplação do
rosto do pai morto. Nesse quadro literalmente comparado a um “estudo quase
superposto” fica evidente o papel de continuador que o personagem assume em
relação ao pai:
“Dois rostos, um
derrisório e solene de perfil no travesseiro alto, mandíbula presa num lenço,
outro de frente, mordaz, fixando o morto, ambos imóveis. O perfil – em vida não
era assim: nítido – dá uma impressão de juventude, não obstante o bigode cor de
prata suja; o contemplador, pelo contrário, está envelhecido, e assim os dois
parecem estudos quase superpostos – um em repouso, outro contraído – do mesmo
rosto.”
Toda a descrição relativa à casa que
ele herdou e na qual vive com a mulher designada pelo pai, Eudóxia, única
personagem nomeada na história, nome grego e que tem como significado: de boa
reputação, é apresentada como algo imóvel, amarelo, pastoso. O espaço doméstico
é opressivo, escuro. Já as lembranças relativas à sua ex-namorada ocorrem todas
em locais de movimento: O primeiro lugar no qual ele se lembra dela é no trem,
quando está empreendendo uma viagem simbólica para o velório do pai, e o
encontro com ela, única parte da história que contém diálogos e que está marcada,
portanto, por uma fala externa ao personagem, se dá no cais, onde ele costuma observar
os paquetes e lembrar dos sonhos de juventude que não concretizou e que ela está prestes a
realizar:
“- Aí está”. Depois de tantos anos de espera, vou atravessá-lo.
-
Tenho visto seu nome nos jornais. Li que você obtivera uma bolsa na Espanha.
Fiquei contente, disse comigo: “Ora veja, quem podia imaginar que ela ia se
tornar uma artista famosa”.
Eudóxia é o oposto da ex- namorada do
protagonista, que é a representação luminosa do próprio ato criativo,
reiterando essas oposições de luzes e vozes que acompanham todo o texto:
“Tinha
um dente de ouro. A pele é menos brilhante; não os olhos. Mais bonito o cabelo,
os seios menores, mais fina a cintura. Atraente, com qualquer coisa de intenso
e de maduro em seu vestido azul, contra a parede ocre e o negro telhado do
armazém. Eudóxia é mais jovem do que ela. E parece mais velha, em seus vestidos
frouxos, em seu jeito ausente e sorrateiro, disfarçando a perene atitude de
suspeita...”
Sintomaticamente a ex-namorada está
indo para Granada e ele lhe pede que ela lhe envie um cartão postal de ciganos,
um povo nômade e que não costuma ter boa reputação, ao qual ela própria é
relacionada na menção ao seu dente de ouro, que costuma ser uma das
características atribuídas a eles e que brilha.
Em seguida ele recorda de uma fala
dela que, apesar de estar no presente, remete a um diálogo ocorrido no passado,
no qual ela discorre a respeito da mesquinhez daquela cidade em relação aos
grandes centros e alude a possibilidade de sair, junto com ele, daquele lugar,
fazer uma viagem, atravessar o mar, e na continuidade dessa lembrança da
juventude transparece a mesquinhez do personagem, que novamente se assemelha à
paisagem, ele é tão mesquinho quanto a cidade:
“Havemos. Ela diz
havemos. Eu, não tu, farei essa viagem. Não sabes o que disse um poeta, desiludindo
a sua namorada, decerto parecida contigo e que imaginava continuar ligada para
sempre a ele? Eu sou Goethe!”.
E na sequencia da comparação que ele
faz dele mesmo com Goethe, comparação que nos fornece uma hipótese de
investigação relativa ao romantismo, já que diferentemente do que costuma
ocorrer nesses romances, o protagonista não conseguiu se livrar do seu destino
e viver as aventuras típicas de um herói, temos uma inversão irônica refletida
no seu desejo de voltar para a cidade e encontrar a ex-namorada casada com
algum comerciante:
“Mas sei que um dia
voltarei aqui rodeado de glória. Teu marido será empregado do comércio, ou
talvez escrevente no cartório, terás um lar e filhos; mas teu orgulho maior, a
ninguém confessado, virá de seres o que és agora: a testemunha de minha
adolescência. Eu sou Goethe.”
A
descrição da cena do seu casamento com Eudóxia, cujo significado é anunciado
pela má caligrafia da palavra amor escrita no bolo e que, não por acaso, é a
única palavra que aparece no texto em letras maiúsculas, reforça a hipótese de
que a narrativa em questão não está tratando de uma singularidade, mas de uma
questão universal, no caso, do amor romântico. Amor, aliás, é a única palavra referida
como tal dentro do texto:
“Se
não nos une o amor daqui ausente - , como poderia ser eterno? E não perca seu
tempo em busca de símbolos. Para nós, só um é válido, esses bonecos ocos,
ostentando uma palavra grave (a palavra, a palavra!) num coração de papel. É
possível que nem chegue a desembaraçar-se dos presentes hoje recebidos.”
Além disso, enquanto a ex-namorada é
associada a imagem de um pássaro transparente, cujos olhos ainda brilham, signo
da liberdade que aponta para o exterior, Eudóxia é associada a imagem de um
poço, voltada de forma cada vez mais implacável para si mesma:
“Essas
palavras dele, sei por onde se escoam. Não fogem pelas portas, nem pelas
janelas; desparecem a meu lado, para sempre, sugadas por este poço ao qual
liguei minha vida e de quem sinto o ossudo cotovelo”.
Após a lembrança do seu casamento
ele espera seus empregados saírem para procurar entre seus papeis os poemas que
ele ainda preserva, e dos quais se lembrou graças à notícia que leu no jornal a
respeito dos quadros da ex-namorada e que provavelmente é o fato que o levará ao encontro com ela antes da sua
partida, e no final do texto, apesar da fragmentação propiciada pela memória e
pelos enfoques narrativos semelhantes a imagens cinematográficas, o autor consegue
construir uma narrativa que possui unidade.
Ao analisar esse conto em comparação
com o conto “Os Gestos”, Graciela Cariello
observa que os narradores osmanianos, ubíquos e aperspectívicos, constroem o
espaço em procura da totalidade cósmica, mas, enquanto em “Os Gestos”, o
personagem passa por uma espécie de epifania através da visão, ao vislumbrar a
transformação da sua filha em uma mulher, no final do Pássaro Transparente a
imagem da ex-namorada pintora enquanto: o
pássaro que conseguiu quebrar a casca e descobrir um modo criador e livre de
existir
se contrapõe a dele, cujas mãos se fecharam cada vez mais até deixarem de
lhe pertencer, o que aponta para uma defesa simbólica da arte como um elemento
libertador.
BIBLIOGRAFIA
LINS,
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Paulo: Companhia das Letras, 1999.
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REVISTA VIVER E ESCREVER. Entrevista concedida a Edla Van Steen –
Porto Alegre.Vol 1, Editora L&PM, 1981.