quinta-feira, 26 de novembro de 2015


Fotografia de Edward Weston.

PUTA

Sou um martelo, uma lâmina
uma corda
Instrumento suicida
Puta e santa
Cadela líquida
Agulha de cristal.

Sou uma granada, uma chaga
uma morta
Instrumento para a descida
Puta e santa
Sangue e líquen
Pedra enterrada no quintal.

Sou uma flor, um poema
uma açucena
Instrumento para a subida
Puta e santa
Punhal e carabina
e trago dentro da vagina
pássaros de sal.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Romanceiro Gitano

Que canto há de perfurar
minha pele madura
as reminiscências dos mortos,
Mitos, recitais?
Com a voz calada da lua
sofrem ciganos perdidos

entre os madrigais.

Que canto há de abrandar
minha armadura
as dormências que trago dos vultos,
Tangos, carnavais?
de dentro dos poemas corpos 
gritam  sereias arrastadas
por um canto circular.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015



SAPATINHOS VERMELHOS

Dançaras, e era o que ela fazia. Dançava calmamente até sentir seu sapato se transformar em um pesado coturno.

Vem Natan, senta aqui que já é quase meia noite e eu estou cansada de tanto tédio, as luzes de natal já enfeitam as ruas e finalmente posso calçar meus sapatos vermelhos diante do espelho enferrujado, já é tempo de esquecer as notícias da televisão, e enquanto a música toca rodopiar surda às salivas e suores alcoólicos dos homens que trago colados junto a meu rosto de batom apagado e que dançam em ritmos alternados, cada vez mais ousados, rápidos e sombrios dentro de mim.
  Vem Natan, e traz uma taça de vinho gelado para a gente tomar entre os intervalos desse baile imaginário, descansa seus pés determinados dentro dessa robusta bacia que eu coloquei no canto do salão e me deixe contemplar essas tatuagens de mariposas azuladas e esses poemas alados que você tem nos braços e que te mantém sempre longe do tumulto e da violência da multidão.  
 Vem e me deixa contemplar a delicadeza das suas veias, tocá-las, há sangue nos meus pés e esse sangue é da cor do sexo das mulheres na hora do parto, derrama vinho sobre eles, o vinho é a bebida do esquecimento e é preciso sempre esquecer Natan, das tâmaras que colhíamos dos nossos ventres, dos nossos passeios observando os gatos pelos telhados, do esforço do cavalo para ser cão, é preciso distinguir o verossímil do inventado e dormir com mil marinheiros para conseguir   arrancar a poesia da lama que escorre no chão.
Chegou o tempo das maçãs envernizadas, das intermináveis filas dos mercados, de recolher as folhas secas das ruas, chegou o tempo, aperta meus pés inchados para que eles voltem a se mexer pelo salão, passa a língua em câmera lenta pelos degraus das minhas vértebras e enquanto o silêncio ainda arranha o tédio dos corrimões e vamos nos trancar nus como os capricórnios dentro dos nossos calabouços para observarmos a manhã nascer delicada enquanto o mundo termina ao som de um romanceiro gitano repleto de fúria: tire meus sapatos vermelhos e apague a luz Natan, pegue seu bandolim e venha ver as constelações.

terça-feira, 28 de julho de 2015


ANÁLISE DA NARRATIVA “O PÁSSARO TRANSPARENTE” DE OSMAN LINS.

            Indefinido, é assim que começa a descrição do personagem do primeiro texto do livro Nove, novena de Osman Lins que trás na capa o subtítulo: narrativas, deixando clara sua adesão à estética do modernismo que tem como uma das suas características o enfraquecimento das fronteiras tradicionais, não apenas entre os gêneros, mas entre as linguagens artísticas, conforme depreendemos do texto aqui analisado, que alterna cenas semelhantes a quadros, com a consciência de um protagonista cuja interioridade é construída em conexão direta com as paisagens nas quais se passam os acontecimentos.
            Oscilando entre o passado e o presente, o conto narra de forma não linear, através de uma descrição semelhante à montagem e ao corte cinematográfico, que se alterna com as reminiscências típicas da memória, a história de um homem bem sucedido que amargurado, recorda os sonhos vividos na juventude.
            No ensaio Reflexões sobre o romance moderno, Anatol Rosenfeld[1] levanta a hipótese de que, no campo das artes ocorreu um fenômeno que ele intitula de “desrealização”, que se observa inicialmente na pintura, e que está relacionado ao fato de a arte ter deixado de ser mimética. Segundo ele, tal fenômeno também pode ser observado no romance moderno e se manifesta principalmente na fusão entre passado, presente e futuro. Essa abolição do tempo cronológico abala a perspectiva nítida do romance realista que deixa de apresentar o retrato de indivíduos íntegros. Apesar de ROSENFELD estar se referindo ao romance, suas observações podem ser aplicadas ao presente texto, já que Nove, novena marca o início de uma fase experimental do autor na qual as questões relativas a uma definição clara de gênero perde a centralidade, como podemos notar no trecho da entrevista abaixo transcrito:
             O Fiel e a Pedra começou como novela e depois virou um romance. Como e quando você determina o gênero? Poderia definir o que é o conto, a novela e o romance? É razoável persistir o gênero literário na literatura contemporânea?
 Devemos conceder maior amplitude à pergunta que leva a essa controvertida questão de gêneros, indagando, por exemplo, o que se entende por ficção. Que devemos entender por ficção? Acho ser a fixação, através da palavra escrita, e com ênfase na aparência das coisas, pelo autor decompostas e reorganizadas, de uma visão pessoal do mundo, não raro absurda e quase sempre insólita, que no entanto se confunde, sob a pressão do gênio do escritor, com o universo onde todos habitamos. A designação do gênero me parece acadêmica, não importa. E as existentes nem sempre satisfazem. Designei os trabalhos de Nove, Novena, por exemplo, como narrativas[2].
No posfácio de Nove, novena: “Palavra Feita Vida” [3], José Paulo Paes se refere à  “Um pássaro transparente” como um conto, já que: ele envolve um único conflito dramático para cuja resolução se encaminha de pronto o fio fabular, embora de forma não linear, no entanto, nesse mesmo texto, ele observa que: essa montagem descontínua de flagrantes temporais, que dinamizam a forma do conto, ameaçam romper os limites que o separam da novela.
Ainda em relação à questão do gênero, é interessante pensarmos nas reflexões de Júlio Cortázar[4] quando ele aproxima o conto da poesia, nesse aspecto, apesar das diferenças encontradas entre os autores, há, nas narrativas de Osman Lins, uma aproximação entre esses gêneros, na medida em que a contemplação ocupa um importante papel refletido nas cenas descritivas, que se assemelham literalmente a quadros. Ao contrário do que ocorre em um conto realista, em “O Pássaro Transparente” a descrição dissolve a ação e a subjetividade que emerge não é propriamente a de um eu individualizado.
Nesse sentido, é interessante pensar na relação que Adorno[5] estabelece entre lírica e sociedade, quando ele diz que a universalidade do teor lírico é essencialmente social: “Só entende aquilo que o poema diz quem escuta, em sua solidão, a voz da humanidade”. E é essa voz que ouvimos reverberar nessa bela narrativa de Osman Lins.
             A narrativa começa com a descrição de um menino de oito anos que, ao fitar um gato preto e branco, estabelece com ele uma relação de contraponto pautada na superioridade da sua espécie e na sua durabilidade temporal em relação ao felino, e nessa primeira descrição já encontramos o que NITRINI[6] chamou de “Poética de tensões”, marca registrada da literatura de Osman Lins de Nove, novena à Rainha dos cárceres da Grécia:
“Você me olha de cima, porque está no muro. Mas vou ser um homem, vou viver cem anos. Crescer. E quando for mais alto que portas e telhados, onde estarás? Hein? Sentado onde? Olho para você e já vejo a ossada brilhando no monturo. Andas mansinho, és um silêncio andando. Eu, quando crescer, meu bater de calcanhar no chão será como trovões”[7].
            Mas apesar dessa aparente altivez, retratada através da oposição entre barulho e silêncio, o menino já traz uma tristeza escondida, fruto de uma resignação que vai sendo desvendada ao longo da narrativa, na qual descobrimos que a capacidade de permanência do personagem não está relacionada apenas a uma questão temporal, mas a continuidade de uma condição social que ele herda do pai, um senhor de engenho de um pequeno vilarejo localizado em algum lugar, provavelmente no interior do nordeste reiterando a hipótese de uma representação arquetípica que permeia a obra do autor, e ao menino de rosto brilhante e cabelo fino e claro, se contrapõe: a face de um homem exausto, emoldurada pela janela do trem[8] que se dirige ao velório do pai, imagem que antecipa a transformação da criança sonhadora em um homem cruel:
“Seus cabelos escuros começam a embranquecer, a roupa de casimira negra (luto do pai) é demasiado frouxa, demasiado cômoda, as meias brancas enrugam-se nos tornozelos, os sapatos não brilham...”[9].
             Após a lembrança das cartas rasgadas no trem pelo protagonista, vai se desenhando aos poucos a tentativa de resistência de libertação de uma herança social imposta empreendida, sem sucesso, pelo personagem durante sua juventude e, na contraposição que ele estabelece, dessa vez com a paisagem, que ao contrário dele, mudou pouco, encontramos novamente aquela resignação apontada no começo da história e que está refletida na imobilidade: ele mudou por fora, envelheceu, mas por dentro continua o mesmo: “Este engenho, como os outros que vejo no caminho, parece eterno com seu triste bueiro, seus telhados velhos e o copiar sombrio”[10] e, além disso, mesmo que ele pudesse voltar no tempo, de nada adiantaria: “A juventude do homem, felizmente não é como a folhagem dessas árvores. Se fosse, se eu voltasse a ser jovem, cometeria os mesmos erros, talvez outros maiores”[11].
            A aceitação do papel social que lhe foi atribuído fica ainda mais evidente no momento descritivo de contemplação do rosto do pai morto. Nesse quadro literalmente comparado a um “estudo quase superposto” fica evidente o papel de continuador que o personagem assume em relação ao pai:
“Dois rostos, um derrisório e solene de perfil no travesseiro alto, mandíbula presa num lenço, outro de frente, mordaz, fixando o morto, ambos imóveis. O perfil – em vida não era assim: nítido – dá uma impressão de juventude, não obstante o bigode cor de prata suja; o contemplador, pelo contrário, está envelhecido, e assim os dois parecem estudos quase superpostos – um em repouso, outro contraído – do mesmo rosto.” [12]
            Toda a descrição relativa à casa que ele herdou e na qual vive com a mulher designada pelo pai, Eudóxia, única personagem nomeada na história, nome grego e que tem como significado: de boa reputação, é apresentada como algo imóvel, amarelo, pastoso. O espaço doméstico é opressivo, escuro. Já as lembranças relativas à sua ex-namorada ocorrem todas em locais de movimento: O primeiro lugar no qual ele se lembra dela é no trem, quando está empreendendo uma viagem simbólica para o velório do pai, e o encontro com ela, única parte da história que contém diálogos e que está marcada, portanto, por uma fala externa ao personagem, se dá no cais, onde ele costuma observar os paquetes e lembrar dos sonhos de juventude que  não concretizou e que ela está prestes a realizar:
                                      “- Aí está”. Depois de tantos anos de espera, vou atravessá-lo.
- Tenho visto seu nome nos jornais. Li que você obtivera uma bolsa na Espanha. Fiquei contente, disse comigo: “Ora veja, quem podia imaginar que ela ia se tornar uma artista famosa”[13].
             Eudóxia é o oposto da ex- namorada do protagonista, que é a representação luminosa do próprio ato criativo, reiterando essas oposições de luzes e vozes que acompanham todo o texto:
                                      “Tinha um dente de ouro. A pele é menos brilhante; não os olhos. Mais bonito o cabelo, os seios menores, mais fina a cintura. Atraente, com qualquer coisa de intenso e de maduro em seu vestido azul, contra a parede ocre e o negro telhado do armazém. Eudóxia é mais jovem do que ela. E parece mais velha, em seus vestidos frouxos, em seu jeito ausente e sorrateiro, disfarçando a perene atitude de suspeita...”[14]  
            Sintomaticamente a ex-namorada está indo para Granada e ele lhe pede que ela lhe envie um cartão postal de ciganos, um povo nômade e que não costuma ter boa reputação, ao qual ela própria é relacionada na menção ao seu dente de ouro, que costuma ser uma das características atribuídas a eles e que brilha.
            Em seguida ele recorda de uma fala dela que, apesar de estar no presente, remete a um diálogo ocorrido no passado, no qual ela discorre a respeito da mesquinhez daquela cidade em relação aos grandes centros e alude a possibilidade de sair, junto com ele, daquele lugar, fazer uma viagem, atravessar o mar, e na continuidade dessa lembrança da juventude transparece a mesquinhez do personagem, que novamente se assemelha à paisagem, ele é tão mesquinho quanto a cidade:
“Havemos. Ela diz havemos. Eu, não tu, farei essa viagem. Não sabes o que disse um poeta, desiludindo a sua namorada, decerto parecida contigo e que imaginava continuar ligada para sempre a ele? Eu sou Goethe!”[15].
            E na sequencia da comparação que ele faz dele mesmo com Goethe, comparação que nos fornece uma hipótese de investigação relativa ao romantismo, já que diferentemente do que costuma ocorrer nesses romances, o protagonista não conseguiu se livrar do seu destino e viver as aventuras típicas de um herói, temos uma inversão irônica refletida no seu desejo de voltar para a cidade e encontrar a ex-namorada casada com algum comerciante:
“Mas sei que um dia voltarei aqui rodeado de glória. Teu marido será empregado do comércio, ou talvez escrevente no cartório, terás um lar e filhos; mas teu orgulho maior, a ninguém confessado, virá de seres o que és agora: a testemunha de minha adolescência. Eu sou Goethe.”[16]
A descrição da cena do seu casamento com Eudóxia, cujo significado é anunciado pela má caligrafia da palavra amor escrita no bolo e que, não por acaso, é a única palavra que aparece no texto em letras maiúsculas, reforça a hipótese de que a narrativa em questão não está tratando de uma singularidade, mas de uma questão universal, no caso, do amor romântico. Amor, aliás, é a única palavra referida como tal dentro do texto:
“Se não nos une o amor daqui ausente - , como poderia ser eterno? E não perca seu tempo em busca de símbolos. Para nós, só um é válido, esses bonecos ocos, ostentando uma palavra grave (a palavra, a palavra!) num coração de papel. É possível que nem chegue a desembaraçar-se dos presentes hoje recebidos.”[17]
            Além disso, enquanto a ex-namorada é associada a imagem de um pássaro transparente, cujos olhos ainda brilham, signo da liberdade que aponta para o exterior, Eudóxia é associada a imagem de um poço, voltada de forma cada vez mais implacável para si mesma:
“Essas palavras dele, sei por onde se escoam. Não fogem pelas portas, nem pelas janelas; desparecem a meu lado, para sempre, sugadas por este poço ao qual liguei minha vida e de quem sinto o ossudo cotovelo”.[18] 
            Após a lembrança do seu casamento ele espera seus empregados saírem para procurar entre seus papeis os poemas que ele ainda preserva, e dos quais se lembrou graças à notícia que leu no jornal a respeito dos quadros da ex-namorada e que provavelmente é o fato  que o levará ao encontro com ela antes da sua partida, e no final do texto, apesar da fragmentação propiciada pela memória e pelos enfoques narrativos semelhantes a imagens cinematográficas, o autor consegue construir uma narrativa que possui unidade.
            Ao analisar esse conto em comparação com o conto “Os Gestos”, Graciela Cariello[19] observa que os narradores osmanianos, ubíquos e aperspectívicos, constroem o espaço em procura da totalidade cósmica, mas, enquanto em “Os Gestos”, o personagem passa por uma espécie de epifania através da visão, ao vislumbrar a transformação da sua filha em uma mulher, no final do Pássaro Transparente a imagem da ex-namorada pintora enquanto: o pássaro que conseguiu quebrar a casca e descobrir um modo criador e livre de existir[20] se contrapõe a dele, cujas mãos se fecharam cada vez mais até deixarem de lhe pertencer, o que aponta para uma defesa simbólica da arte como um elemento libertador.  

BIBLIOGRAFIA
LINS, Osman. Nove, novena. Narrativas. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
LINS, Osman. Os Gestos. São Paulo: Moderna, 1994.
ADORNO, Theodor W. Notas de Literatura I. São Paulo: Editora 34, 2006.
AUERBACH, Erich. Mimesis. São Paulo: Perspectiva, 2013.
ROSENFELD, Anatol. Texto/Contexto I. São Paulo: Perspectiva, 1996.
CORTÁZAR, Julio. Valise de Cronópio. São Paulo: Perspectiva, 2013.
Tessitura, Interações, Convergências. Organização Sandra Nitrini. São Paulo: Hucitec: 2011.
 REVISTA VIVER E ESCREVER.  Entrevista concedida a Edla Van Steen – Porto Alegre.Vol 1, Editora L&PM, 1981.




[1] ROSENFELD, Anatol. Texto/contexto I. São Paulo, Perspectiva, 1996.
[2] REVISTA VIVER E ESCREVER.  Entrevista concedida a Edla Van Steen – Porto Alegre.Vol 1, Editora L&PM, 1981.
[3] PAES, José Paulo. Palavra feito vida. In: Nove, novena. Companhia das Letras, São Paulo, 1999.
[4] CORTÁZAR, Julio. Valise de Cronópio. Perspectiva, São Paulo, 2013.
[5] ADORNO, Theodor. Notas de Literatura I. Editora 34: São Paulo, 2006.
[6] NITRINI, Sandra (Org.). Tessituras, Interações, Convergências. São Paulo: Hucitec: Abralic, 2011.
[7] Osman Lins. O Pássaro transparente, In: Nove, novena. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 9.
[8] LINS, Ibidem, 1999, p. 9.
[9] LINS, Ibidem, 1999, p. 9.
[10]LINS, Ibidem, 1999, p.9.
[11] LINS, Ibidem, 1999, p. 10.
[12] LINS, Ibidem, 1999, p. 12.
[13] LINS, Ibidem, 1999, p. 13.
[14] LINS, Ibidem, 1999, p. 14.
[15] LINS, Ibidem, 1999, p. 16.
[16] LINS. Ibidem, 1999, p. 16.
[17] LINS, Ibidem, 1999, p. 18.
[18] LINS, Ibidem, 1999, p. 17.
[19] GRACIELA, Cariello. Iluminações e vozes. (Osman Lins, Juan Saer, Jorge Luis Borges). In: Tessituras, Interações e Convergências. Org. NITRINI, Sandra. São Paulo: Hucitec, Abralic, 2011.
[20] LINS, Ibidem, 1999, p. 19.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Genesis - Sebastião Salgado.


DELICADEZA

O rastro de seu corpo já foi vida
e eu inventava desejos
 apagava vestígios
costurava feridas.

E saíamos com receio das cavernas 
para perambularmos
em ruas destecidas
por Penélopes míticas.

O rastro de seu corpo agora é verbo
e eu retorço na memória
sangue, urina e dejetos
e estrangulo noturna
nosso corpo ao cubo
copulado até a medula dos nossos versos.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Chirico - Ettore e Andromaca (1917)
 
Carta ao Deus Menino 2 –  SÉRIE AUTOFICÇÃO.


Estamos vestidos de alfabeto,
Não sabemos nosso nome.
Cavalos brancos vermelhos
Mastigam o mundo:
Olhai a sombra da terra,
Uma enorme guilhotina.

Galopa fantasma
Vida contra vida.

Murilo Mendes. ( As Metamorfoses)

 O MURO

Mergulhei as palavras na chuva para ver se encolhidas pela dor eu conseguia guardá-las, como guardei os dentes da infância, ou a dentadura partida do meu avô, mas dentro de corações solitários é tudo apertado e viscoso, como dentro das vaginas, e por mais que me esforçasse, as palavras se esvaíam com a saliva  e eu não conseguia apanhá-las para amarrá-las ao inútil fio de Ariadne que eu trazia. Não, isso não é um sonho, é apenas a constatação muda de que nós sempre estaremos aqui unidos e separados pela fantasia desse muro.

Lembrei de todos os muros que marcaram minha vida, do falecido muro de Berlim a muralha da China, e me vi - pulando - de forma repentina os muros das casas da minha rua de infância. Quando eu era criança nenhum muro me impedia, tenho as cicatrizes vivas pelo corpo como prova da minha habilidade e penso sempre que se não tivéssemos sido crianças pobres a vagar esquecidas por telhados roxos, como pequenos gatos, teríamos ido juntos ver os restos dos famosos muros que caíram mundo afora, ao invés de gastarmos nosso tempo construindo esses invisíveis muros (interiores), cercados por livros, cafés, sucos e jabuticabas, para nos protegermos da dor da queda do muro do mundo.

Eu sempre quis embarcar em um navio que me levasse até a Antártica onde poderia comparar a pequenez de nossa vida com a eternidade das baleias ou com a poesia dos icebergs, mas medos imaginários e falta de coturnos apropriados me impediram de caminhar até a Islândia, (eu, que sempre sonhei com um casaco rosso e uma taça de vinho) onde poderia ficar isolada do tempo e das lembranças do meu corpo que servia de trampolim rumo a uma memória antiga como se fosse possível adiar a morte que escorria em forma de sêmen sobre as veias desoladas do meu pé e que me lembravam um poema antigo e eu não senti nada além de uma tristeza semelhante à tristeza que senti ao reconhecer seu corpo descarnado, finalmente desenterrado de dentro de mim.

Há mil histórias contadas a respeito de improváveis heróis postados em improváveis muros a espera de inexistentes bárbaros. Acho que trocamos as últimas cartas escritas pela humanidade, quando ainda acreditávamos que a loucura do amor seria responsável pela diluição das regras e das fronteiras e que nosso jogo de amarelinha nunca nos levaria nem para o sul nem ao inferno silencioso dos subúrbios ou de nós mesmos.

Tínhamos línguas afiadas e penugens de anjo e a ilusória eternidade dos nossos gozos se alternava entre a tristeza dos autorretratos de Frida Kahlo e o entusiasmo das canções de guerra feitas para alegrarem os feridos e seus espermas desapontados em noites vazias ao observarem os corpos dos seus companheiros voltarem ao pó, antes que os demônios acordassem e os pássaros viessem beber ao sol e devorar os mortos, enquanto eles sobreviviam.
 
Nós estávamos doentes, vivíamos fora do tempo, possuídos pelas ideias fixas dos fantasmas, das dimensões e dos duplos, procurávamos nos mapas a rua de mão única da infância. Em breve partiríamos, sabíamos que nossos corpos se repartiriam, e mesmo assim não conseguíamos parar de mover nossos quadris, apesar de sabermos que da nossa união não surgiria nada de concreto além das cartas e dos textos publicados nos jornais manchados de sangue de Madrid. Tínhamos os mesmos defeitos. Nossos  antigos amantes tinham filhos com nomes de Stalin, Mussolini, Idi Amin Dada, Salazar, Pinochet, entre outras excentricidades, coincidências com as quais nos espantávamos, enquanto você desembaraçava meus cabelos entre copos de água e partidas de xadrez. Éramos gêmeos na agonia.

Quando enfim nos reencontramos, houve uma confabulação interna que inutilizou as palavras e nenhuma aventura sentimental pôde ser contada. Naquela tarde preguiçosa apenas as pombas brancas arrulhavam nos telhados em sinal de paz e comentamos sobre as mãos cortadas de Che Guevara em um recanto distante da Bolívia enquanto segurávamos com o polegar e o dedo indicador nossas xícaras burguesas de café amargo. Minha cabeça era uma rosa gigante que se desfolhava na balada silenciosa dos seus lábios. Não caminharias nunca mais para meus seios, nem se aninharia feito uma menina entre minhas pernas. Nunca mais me seria permitido triturar com a ponta dos dedos seus ossos escondidos. Eu tinha sido um menino mau, curioso e desprovido de sonhos bailarinos.  Disso, nós dois sabíamos.

- Nerval se enforcou com o manuscrito de Aurélia no bolso. Eu disse para puxar assunto.
- Paris não é uma festa e a força da vida não nos leva mais pela mão. Ele comentou sombrio enquanto dobrava seu agasalho e retirava da bolsa um exemplar de O Labirinto da Solidão.

Os sonhos das nossas infâncias violentas desenrolaram-se da boca das sereias e soubemos que o irreal nunca mais se levantaria em aurora e levaria nossos corpos de volta aos chuveiros do paraíso, o tempo havia nos mastigado feito vidro, até a água agora nos feria e nós havíamos nos rendido como soldados que retornam mudos e cheios de cicatrizes e tatuagens dos campos de batalha e se casam com a primeira dama que avistam. Agora eu era uma mulher sentada em volta de um círculo de fogo folheando, como as outras, um livro de gravuras, e, de dentro dele, um menino me sorria.

Na nossa última viagem ao fim da noite você me disse que as fogueiras da inquisição foram transformadas em um estado de espírito, e que nas suas andanças você havia colocado um cadeado na Pont de Arts com a finalidade de deixar guardado ali o nosso amor e eu te contei que ainda adorava a sombra gelada dos homens encantados que se fazem presentes pela pele das palavras e que não acreditava nos pecados das histórias bíblicas e nem na maldade das bruxas. Você não respondeu. Nos embriagamos de néctar e em vão procuramos no reflexo perdido dos nossos copos nossos corpos dionisíacos, carregávamos, como escudo, nossos livros,  acendemos velas e incensos para os deuses da poesia, rimos, mas isso não foi suficiente para impedir a verdade pressentida em um beijo de despedida e no verão seguinte havíamos fugido e mudado de corpos e de vida.  

Te escrevo novamente uma carta, mas quero que saiba que essa carta não é para você, porque você, assim como esses muros, e talvez como essa carta, não existe, o que existe são apenas os ruídos que percorrem lentos as ruínas dessa antiga construção que por falta de necessidade e uso ruiu. Sim, talvez você se espante ao descobrir assustado que, depois de tanto trabalho, algo roeu nossos muros, e, sentado no meio fio ao lado de um velho rato, descubra que isso não tem a menor importância para nossa arqueologia, porque, exceto em um livro de Kafka, ou em algum labirinto perdido da literatura, ninguém passaria a vida plantado como uma sombra ao lado de um escombro escavado cujo eco repete sempre a palavra muro.


 
VM

quarta-feira, 11 de março de 2015


Para meu filhote Fernando.

MITO

Te contemplo
  como contemplo o tempo
que corrói lento
a casca do fruto
de uma árvore intacta.
 

E enxergo na pedra
a verdade profunda de uma pedra
que como os peixes
ignora as sintaxes.
 

E enquanto você cresce
descubro que as mulheres nascem do espanto
diante das coisas inominadas.
 

E que foi preciso o toque da serpente
para que a partir dos seus ventres
as crianças pudessem ser inventadas.