quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O Grito - Munch.
 
 
INSPIRAÇÃO ARTIFICIAL
Olhos acesos no álcool. O incêndio nos une e separa. Nada aprendi com o tempo, só com as cinzas, na dissolução das coisas íntimas. A fúria enovelada em ternura toquei os ombros dos eventos díspares e em meio ao tumulto deixei os gestos no escuro. Melhor que isso: bebi a esmo um copo negro de esquecimento.
Contador Borges.
Aquela vaca maldita se esticou na cadeira com os dedos enrolados nos cachos idênticos aos que eu imaginava que ele devia trazer entre as pernas e começou a dizer que o GRANDE problema é que meu poema era datado, datado, repetia enquanto cruzava as pernas abertas na tentativa vã de esconder o avesso de uma inexistente buceta.
E trazia mesmo, conforme descobri bem antes dela levar embora todos os clichês da minha vida, além do carro, da televisão, do cachorro e da minha libido, deixando na casa vazia apenas dois mudos canários amarelos e a típica sensação rancorosa de quem toma um pé nas vísceras a cada manifestação amigável de piedade.
            Foi nessa mesma manhã chuvosa que joguei fora todos meus livros de poesia, meus CDs de Bossa Nova, enfim, me livrei dessas merdas todas e tomei minhas últimas garrafas de vinho. Embriagado, entrei no chuveiro e escrevi no vapor dos azulejos: Meu pai sim é que era Macho e imaginei que engraçado seria se meu pai estivesse ali nu e tive uma crise de riso, mas a crise passou quando lembrei que se meu pai fosse vivo provavelmente me esbofetearia: Maricas! Gritaria, e por isso, decidi que nunca mais riria.
            Acordei de ressaca. Uma espécie de euforia tinha tomado conta de mim e a única coisa na qual conseguia me concentrar era em uma mancha preta que me fitava do teto e ao passar a mão pelo meu pau ereto, concluí perplexo, que além de estar com o pensamento rimado aquela era minha única amiga. Iniciei os movimentos, primeiro com cuidado, depois mais rápido, até conseguir acertá-la em cheio, minha porra respingou por todos os lados e antes de me levantar aliviado, tive certeza de que ela sorriu.
            Verifiquei feliz que o outro canário havia morrido, agora seríamos só eu e a mancha a me fitar do infinito. Fiz café e joguei um pouco para ela, como era bom ser casado com uma mancha fria. A mancha era calma, submissa e não reclamava da sujeira. O telefone tocou, o chefe da repartição queria saber quando eu voltaria. Dei uma resposta evasiva e tirei o telefone do gancho para evitar novas interrupções. Arrependido, fui até o lixo decidido a recuperar os livros de poesia, mas era tarde. Justo agora que tinha arrumado uma musa. Expliquei a situação para a mancha e pedi que ela não se chateasse, eu mesmo inventaria versos e cantaria. Peguei papel e caneta e me deitei na cama, decidido a compor os poemas mais belos de amor que ela já vira, mas, por mais que me esforçasse, os versos saíam sofríveis e a mancha ria, ria e ria.
            Aquilo virou uma obsessão: Eu acordava todos os dias às oito horas em ponto com o barulho do despertador, fazia sexo com a mancha, tomava banho e dividia o café com ela, depois me deitava na cama e passava o dia na tentativa inútil de rabiscar versos capazes de impressioná-la e enquanto a mancha indiferente só aumentava de tamanho eu encolhia, até que, prostrado na cama, sem conseguir elaborar uma única rima rica, constatei aterrorizado que não conseguia mais me levantar, a Mancha sorrateira tinha se espalhado por todas as paredes, pelo guarda-roupa e pela cama, tudo fedia e era impossível decifrar onde começava meu corpo e terminava o da mancha - tudo era começo e fim. Desesperado, ainda tentei gritar ao ouvir a campainha, mas a mancha me enfiou uma de suas infinitas tetas na boca e, embalado, me acalmei lentamente até adormecer.
 


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

 
Para Frida Kahlo
 
 


Gestação

Deito

minhas raízes

sobre úteros intermitentes

 e tatuo

a cobiça impossível

de uma pele esticada

para além do sangue.
 
 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Pinturas - Pollock


Entre meus pelos fluídos

refazer um silêncio desenhado

por seus dedos entranhados

na minha vulva noturna

 
 

         Escutar de dentro de um autorretrato

o grito assustado

de um fantasma que me espia

 

Esboçar com cimento armado

o perfil de um homem alado

que ao pousar na terra

vire barro

e me possua

terça-feira, 20 de agosto de 2013


 
 
 
 
DROMEDÁRIO

Para Caio Fernando Abreu.

                Sento no sofá e sinto uma pontada. Imagino que meu coração foi trocado por um ovo apunhalado, mas não recordo exatamente o momento da ocorrência.  Por isso desisto de dar queixa.  O Jeito é conviver com a faca que me cravaram no peito quando estava distraída. Deixar de beber, de fumar, sei lá, qualquer coisa que prolongue a vida, que aumente o ar. Na televisão houve mais um assassinato e o bandido fugiu.  Presto atenção, não é um assassinato comum, é uma chacina, mas ninguém liga para chacinas. Há um suspeito: mostram a foto. Leve semelhança com alguém que conheci. Será o bandido da faca? Não, não é possível. Assassinos profissionais não estilhaçam corações solitários, isso não dá dinheiro e é preciso técnica para fazer o transplante.

                Tento levantar, mas tenho uma protuberância no peito que me impede os movimentos, já desisti da polícia, todos desistiram, só as sirenes são incansáveis.  Imagino que se ficasse sentada ali a noite inteira talvez colocasse o ovo para  fora de alguma forma. É preciso chocar a dor. Não somos melhores que as galinhas. Alguém poderia telefonar e eu pediria ajuda. Tento alcançar o telefone em vão. Toda tentativa é inútil enquanto o ovo não sair. Penso na faca, atravessará meu esôfago ou meu ânus, e o que fizeram com meu coração? Deram aos homens? Aos Porcos?

                Passo a mão nas orelhas e percebo que estou sem brincos, não lembro de tê-los tirado, sinto frio e percebo que estou nua, tenho, além dos seios, outra pequena protuberância na barriga, acho engraçado: três montes vistos de cima, quatro com o caroço no seio esquerdo. Imagino um dromedário invertido e bem dotado, com quatro corcovas na minha barriga. Faz tempo que não me depilo. Tenho caroços na pele, pequeninos, sempre tive, mas fazia tempo que não os observava.  Pioraram com o tempo. Lamento os caroços e a falta de pêlos do dromedário, pois os pêlos só cobrem a região do Púbis e sinto frio. Recordo do passeio no Jardim Zoológico quando era criança. Ríamos do bafo dos camelos, não lembro a diferença exata entre um camelo e um dromedário e entro em crise de identidade. Tento imaginar outro bicho, mas não consigo, volto à galinha, não tomei banho e o cheiro é insuportável.

                Após o noticiário vem a novela e nenhuma mocinha parece um dromedário, concluo que não sou mais uma mocinha. Na novela todos estão felizes, ninguém teve o coração trocado por um ovo apunhalado enquanto atravessava uma avenida ou vagava numa praia, concluo que as novelas não são verossímeis.

                Propaganda de Campanha contra câncer no seio. O ovo pode sair com uma cirurgia, tenho dúvidas se continuarei viva após uma simples operação e por isso acendo outro cigarro despreocupada com a possibilidade de câncer no pulmão. O chão está imundo e a gata mia desesperada. Penso que alguém vai entrar e me tirar desse marasmo. Brinco com a morte. Na minha vida só restaram fantasmas e eles não virão me socorrer e se viessem seria estranho pois não consigo me mexer. Ficaria apática, o terror sobre as pupilas e só compreenderia quem olhasse nos meus olhos. Imagino que nesse momento alguém poderia aparecer e trazer um espelho, sempre quis ver a morte de perto. É uma atitude fria e calculista, me diz a mocinha da novela que de dromedário não tem nada, e pelo visto decidiu  me dar lição de moral (fantástico!). É fácil dizer isso quando não se é um dromedário com quatro corcovas entre os seios e a barriga, um punhado de pêlos na vagina e um ovo apunhalado no lugar do coração, respondo indignada e decido ignorar a TV.

                Tenho sede e penso em me arrastar até a cozinha, mudar de ambiente. A gata está desesperada, o chão imundo e continuo nua. Peso os prós e os contras. É preciso ter calma para morrer. Lamento não ser um dromedário, pois não teria esse problema, meu peito já é um deserto e a adaptação seria mais fácil. O trajeto é curto, mas tenho medo de deixar o ninho e matar a dor. É preciso chocar a dor, repito para mim mesma. O sofá é vermelho e se eu menstruar ninguém vai perceber. Lembro que isso é impossível agora. Vou publicar um anúncio nos Achados e Perdidos quando sair daqui:

                “Troca-se um ovo apunhalado por um coração novo”.

                A gata mia de novo e decido não levá-la comigo para a tumba, não sou Faraó. Seguro nas paredes e alcanço a cozinha. Piso em bitucas de cigarro. Encho um copo, bebo, encho outro, coloco no chão. Sento, meu pé está da cor da gata. Sinto ânsia de vômito. Inclino a cabeça. Fico feliz.

 

Do livro: Crônicas de Uma Tara Gentil. Vanessa Molnar.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013




Para Hilda Hilst

 

Mulher

Quando vai aprender que seu sexo é Terra?

Encosta o ouvido em seu  ventre de Ariadne

e escuta

a ausência do tempo febril

que perfura seu labirinto fechado

o eco

que rasga o vazio dos teus ossos

o silêncio

desse Dionísio que te fecunda.


sexta-feira, 21 de junho de 2013



PASSE LIVRE E A REVOLTA DO VINTÉM

Tenho acompanhado as notícias sobre o Movimento deflagrado pelo aumento da Passagem de ônibus que tomou proporções inesperadas em vários estados do país e reitero o que disse no Post anterior no qual refleti, brevemente, sobre os motivos que me levaram a participar da “Conferência Livre de Cultura” em Santo André, que foi, aliás, barbaramente desvirtuada sob a direção de um governo  autoritário e retrógrado.

Em que pese o alto custo de vida que arregimenta a simpatia da classe média, creio, como apontei anteriormente, que o que está em jogo é uma disputa acirrada pela implementação de valores neoconservadores que se refletem diretamente em alguns dos absurdos que foram denunciados nas manifestações, como a Cura Gay e a PEC 37, por exemplo, e, nesse sentido, é extremamente válida a ida do povo às ruas em uma demonstração clara de defesa de um Estado Laico e verdadeiramente democrático, através da discussão de outros mecanismos de participação que extrapolem a representação através do voto e que coloca em pauta questões importantes como a liberalização da maconha e do aborto.

A disseminação desse movimento através das redes sociais é um fenômeno novo que merece reflexão, já que atrai uma multiplicidade de pessoas insatisfeitas que tem objetivos bastante diversificados, além, é claro, de oportunistas de todo tipo. O campo político é uma arena que está sempre em disputa e o debate político-partidário está inserido nela. Há uma série de reformas importantíssimas que se arrastam há anos pelo Congresso, enquanto o senhor Feliciano e sua turma se divertem com o objetivo evidente de agradar seus fiéis seguidores e se reeleger.

Vi, na rede, que algumas pessoas se abalaram quando a FIESP exibiu a Bandeira Nacional, e não é à toa. Tenho a firme convicção de que a forma contemporânea de estruturação do trabalho é uma das principais responsáveis pelo acometimento, em massa, da população, por doenças como Depressão e Pânico, (além de contribuir com o trânsito, a mendicância e o alcoolismo, entre outros males) auxiliada pelo incentivo insano por um consumo abestalhado que faz com que grande parte da população viva muito mais de acordo com um sonho televisivo do que com sua realidade.

Estou lendo o último romance do JM Coetzee traduzido no Brasil: A Infância de Jesus e de imediato, embora de maneira superficial, consigo traçar um paralelo entre a falta de sentido do  mundo contemporâneo e essa insatisfação popular, só que, no romance, aparentemente, todos estão empregados e satisfeitos, embora essa satisfação pareça hipócrita e ainda haja uma discreta distinção de classes exposta na figura de Inês que mudou de uma residência de alto padrão para um apartamento popular, entre outras nuances que ainda pretendo destrinchar, pois estou em processo de leitura. Diferenças a parte, já que o romance parece ser uma critica feroz a uma sociedade falsamente massificada do tipo totalitarista (que medo), poder vivenciar essa diversidade que compõe o mundo nas ruas é algo extremamente saudável e nos faz pensar naqueles que serão os futuros pensadores no nosso país.  

Nossas escolas públicas estão com um déficit real de aproximadamente 30 por cento do seu corpo discente e cada vez há menos interesse por parte dos jovens em se tornarem educadores. Enquanto isso, as indústrias se aproveitam e vendem cursos de Pedagogia à distância de qualidade duvidosa com slogans do tipo: “Faça faculdade em dois anos por apenas R$200,00 mensais” e o resultado dessa política já é visível nas escolas onde alguns ainda resistem bravamente e tentam fazer a diferença.

Levando tudo isso em consideração e, dispensando as Teorias da Conspiração, penso que as idas da população às ruas com suas reivindicações pontuais e dispersas serviram para apontar os problemas estruturais que estão na base desse iceberg do qual temos que desviar com urgência se não quisermos afundar. Por fim, sendo otimista, embora também não saiba onde isso vai dar, gostaria de lembrar que nove anos após a última Revolta do Vintém a Monarquia cedeu lugar à República e talvez, daqui a uma década nós possamos estar em um lugar melhor, não vamos deixar que nos calem, pensamos, logo existimos, ou melhor, existimos porque pensamos. Fora Fascistas!!!

 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

CONFERÊNCIA LIVRE DE CULTURA

Impressões.

Após refletir sobre a importância da inserção do município (Santo André) no Sistema Nacional de Cultura, decidi participar da Conferência Livre que aconteceu ontem na UFABC e acredito que, como a maioria dos Produtores Culturais presentes, me senti bastante contemplada na fala do Dramaturgo Abreu quando ele mencionou a bipolaridade das Políticas Públicas de Cultura na nossa região e sua respectiva aversão à política moderna, fundada por Maquiavel, como um mero jogo de correlação de forças que tem como único objetivo ganhar e manter o poder, ressaltando a incompatibilidade natural desse viés com o trabalho criativo dos artistas, que é um trabalho fundamentado em valores humanos que estão em crise na nossa sociedade.
Eu, particularmente, tenho uma relação de amor e ódio com essa cidade a qual pertenço. Tive experiências significativas na minha formação/inserção que me foram propiciadas por  momentos positivos de gestão cultural que tive a sorte de vivenciar, seguidos de imensos vazios que transformaram a cidade em um deserto cultural, apesar, é claro, dos pequenos focos de  resistência que fazem parte da História Cultural da região.
Minha participação, ontem, em um módulo específico voltado para a reflexão das práticas educacionais e sua relação com a cultura me levou a refletir sobre minha própria trajetória. Afinal, não posso deixar de dizer que fui para a Conferência com uma vaga  sensação de inércia e até de culpa por uma persistência meia nonsense (Deixar meu filho de 3 anos no domingo tendo um trabalho de 40 horas semanais, não é fácil)  e se eu não morasse do lado da Universidade, provavelmente não teria ido. Participo da vida cultural dessa cidade há exatos 21 anos ( Há 21 como público/usuário e há dez como produtora de forma escassa). Aos dezesseis anos assumi a presidência do grêmio da minha escola (Pública),  posicionamento político humanista que (apesar das desilusões) até hoje me define, e exerci uma militância intensa no movimento estudantil que me levou a ser vice-presidente da UMES, me decepcionei com o Partido dos Trabalhadores e PC do B, ao qual fui filiada e tive a sorte (devido ao meu esforço) de estudar na USP, onde pude aprofundar meu parco conhecimento relativo as relações ou, como alguns preferem, Ciências Sociais, pelas quais fui apaixonada. (Confesso que com menos intensidade hoje). Depois de formada e de um longo divórcio com a cidade, resolvi abraçar a literatura como o principal alicerce de significação da minha existência.
Há mais uma série de fatos relevantes que poderia descrever, mas, no fundo, acho que decidi participar da conferência porque estou profundamente incomodada com essa fixação de valores não humanos que estão sendo disseminados como algo natural. Brincando com alguns amigos, que tive a sorte de reencontrar, nós chegamos a conclusão de que o mundo está passando por uma Revolução do Neo- Conservadorismo: Protestos contra os direitos das empregadas domésticas, mercantilização de tudo em grau cada vez mais elevado, sucateamento e falência total do Ensino Público, Feliciano e tantas aberrações.
Talvez eu ainda teime em resistir por causa do medo imenso que tenho ao pensar no mundo que meu filho herdará se não houver resistência a esse projeto de desumanização total que está sendo implementado e vendido de forma tão agressiva sob o matiz alegre do consumo fácil, padronizado e irresponsável.
Sei que cheguei em casa com a sensação de ter feito uma boa escolha, independentemente dos resultados da conferência (que foram positivos), alegre por ainda conseguir resisitir, por ter reencontrado os amigos (amigos de trajetória) e ver que não sou a única  que persiste, por ter conhecido novas pessoas e verificar que, apesar das naturais nuances, elas ainda sonham, por enxergar a possibilidade de novas perspectivas  e sobretudo por ter entendido que, afinal de contas, eu pertenço a esse lugar.